Mais sou obrigada a aceitar que a situação é complexa e por vezes, no mínimo interessante.
O caixão estava posicionado no centro da sala, rodeado de coroas de flores e dois castiçais na cabeceira , que mais tarde serão parte interessada nessa história.
Nessa situações, minha mente se esvazia sem rumo e me coloco num estado hipnótico diante dos fatos.
Em torno de um caixão, se misturam interesses, lembranças, saudades e também alguns sentimentos não tão nobres ... Gosto de observar estes, donos das amizades verdadeiras, as expressões sinceras, que misturam dor, surpresa e saudades.
E foi então que na minha frente apareçe aquela figura que eu conhecia há mais de trinta anos.
Ele era moreno cabelos negros, agora grisalhos, italiano nato com direito ao charme do sotaque .
Na minha imaginação de trinta anos atrás, ele sempre era o chefe da máfia, il capo .
Terno com marca de giz , sempre igual; se tinha um só, ou vários não sei, mais era uma elegância italiana saído de uma página de revista de moda, com lenço no bolso do paletó pronto para enxugar lágrimas de qualquer mocinha indefesa..
Até os míopes óculos, meio esverdeados, combinavam com a fatiota.
Distinto era a palavra certa.
Na mão, trazia um imenso bouquet de rosas vermelhas, cujo perfume ia deixando um rastro por onde passava.
O que chamou a minha atenção não eram só as rosas, mais o fato de ser: três dúzias delas, todas abertas lindas, super frescas e entre elas um daqueles envelopes pequeninos de floricultura.
Alguém me comenta que não eram apropriadas a um velório, mais para mim eram únicas!
Na escolha da cor vermelha eu via o amor, carinho e respeito pela pessoa que nos deixava.
Se sobressaíam as usuais coroas e assim demonstravam o que senti : esse era um nobre de sentimentos sem dúvida.
O cartão guardava um sentimento, discreto no meio das rosas, não como as faixas de estandarte assinadas marcando presença.
Me aproximei dele sentado, sozinho, prestando sua última homenagem.
Os preparativos para a saída do caixão agitavam o recinto: estavam se posicionando naquele reboliço discreto de quem carrega aqui ou ali.
Foi quando perguntei o que havia no cartão, afinal curiosidade é uma das minhas assinaturas...
Ele prontamente se levanta com um sorriso e fala " - lógico eu carrego o caixão!" Com um sorriso de felicidade de orelha a orelha.
E sem mais, se instala do lado direito na parte superior do caixão.eu.....muda, continuei sentada observando a cena...
A nossa amiga vela bem atrás dele. Alguém chama a atenção para que ele vá para a parte oposta do caixão: mais leve.
Ai tudo começa a acontecer em câmara lenta embora minha cabeça funcionasse como um trailer de um filme com final previsto...
A chama da vela, oscilava e sua fumaça subia dançando lentamente como a procura de alguém, para seduzi-la como parceiro nessa dança.
Meus olhos até se fecharam imaginado a cena seguinte....
Lentamente, segundos pareciam horas e ai, nossa vela resolveu continuar sua dança solo.
Respirei fundo com alívio, meus olhos se abriram e quando dei por mim, o caixão estava fechado e em cima... o bouquet de rosas , preparado para a jornada final.
Nunca fiquei sabendo se o cartão estava vazio ou tinha algo escrito... não importava ; só sei que para mim, ficou na memória uma doce lembrança de uma pessoa muito especial.
E o bouquet de três dúzias de rosas vermelhas foi para o céu....








